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quarta-feira, 5 de junho de 2013

QUEM LIGA PARA O AQUECIMENTO GLOBAL?

Rio+20, um ano depois: quem liga para o aquecimento global?


sex, 31/05/13
por Amelia Gonzalez |
 
Chovia e fazia muito frio quando, no dia 9 de junho de 2012,  fui ao Riocentro buscar minha credencial para poder participar da cobertura da Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20.  Não tinha muita gente no pavilhão, talvez por conta do mau tempo. A minha foi uma das 38.442 credenciais que  a ONU afirmou ter entregue. Ou melhor: a minha foi uma das 3.351 credenciais entregues para jornalistas que foram cobrir o evento, de 19 a 22 de junho.
Caminhei pelo espaço quase vazio do Riocentro, naquele dia já transformado em território das Nações Unidas, pensando se aquele Encontro teria o mesmo fim nostálgico da COP-15, Conferência das Partes que acontecera em Copenhague, na Dinamarca,  três anos antes. No país nórdico, a reunião dos líderes fora acompanhada de uma grande excitação mundial porque dali poderia surgir um texto que definiria os rumos de uma economia de baixo carbono. Mas, quando o presidente Obama surgiu no Bella Center, onde aconteciam as reuniões, de mãos abanando, sem apresentar uma possibilidade concreta de negociação, foi um banho de água fria. Sem acordo, a COP-15 se esvaziou num clima bem nostálgico.
Acho que foi isso que salvou a Rio+20 da pecha de um fracasso total. Já me explico: é que, de verdade mesmo, pouca gente acreditava que os líderes pudessem assinar um acordo global sobre o clima.  Sem expectativa, pouca decepção. E, dessa vez, os grandes líderes – como o presidente Obama, a chanceler alemã  Angela Merkel e o premiê britânico David Cameron  – decidiram não vir, talvez para não desgastar a imagem.
O clima de euforia das autoridades no encerramento da Rio+20
A mídia fez seu papel, cobriu a Rio+20 como se cobre um evento de primeira grandeza, e fiquei feliz de estar participando dessa cobertura. Mas, no último dia, não se conseguiu escapar de manchetes pessimistas. O mundo, de novo, fugira da possibilidade de um acordo para evitar que o planeta avance no aquecimento.
De concreto, a Rio+20 aprovou um documento considerado conservador pelos negociadores europeus que participaram da Conferência. Em síntese, o que se queria era mais afirmação e menos adiamento de problemas. “O Futuro que Queremos”, nome dado ao documento,  criou um processo de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável no qual se pretende discutir o que fazer nos próximos anos. Mas, vejam bem, é um processo.  E estabeleceu a criação de um comitê que vai apresentar no ano que vem (ano da Copa no Brasil, é bom que se lembre, porque ninguém vai dar muita importância a isso) em quais áreas o mundo quer ter objetivos de desenvolvimento sustentável e como eles seriam.
Nesse sentido, ontem houve uma novidade. Jornalistas da agência de notícias Reuters tiveram acesso à versão preliminar de um relatório feito por um grupo de 27 líderes mundiais, entre eles o premiê Cameron, com propostas de metas mundiais a serem atingidas até 2030. São propostas que vão suceder as Metas dos Objetivos do Milênio, com foco na redução da pobreza.  Segundo reportagem no site da revista “Exame”,  o texto diz que “sem sustentabilidade ambiental não podemos acabar com a pobreza; os pobres são afetados demais por desastres naturais, e dependentes demais dos oceanos, florestas e solos que estão em deterioração”. Nessa esteira, a ONU está recomendando às empresas que divulguem relatórios financeiros junto com relatórios de seus impactos ambientais.
Bem, aí sim estaríamos diante de uma grande mudança. Porque até agora, no mundo real pós Rio+20, longe dos escritórios aclimatados onde são tomadas – ou não – as grandes decisões, nada de imprevisível vem acontecendo.  Pesquisadores de dez países atestaram, em dezembro do ano passado, que as emissões de gases de efeito estufa atingiram um nível recorde mundial.  Estudos deram conta de que, atualmente, 30% do CO2 presente na atmosfera devem-se diretamente à atividade humana. E, também no ano passado, foi registrado outro recorde inquietante:  o de derretimento da cobertura de gelo no Oceano Ártico, desde que as medições começaram a ser feitas, em 1979.
Mas, apesar de todas  as evidências,  convicções, alarmes, parece mesmo que a humanidade decidiu postergar essa preocupação para a próxima Conferência ou, quem sabe, a próxima catástrofe ambiental imprevisível que seja comprovadamente causada pelo aquecimento global. Seria a vitória dos céticos da mudança climática?
Editor e principal comentarista econômico do jornal “Financial Times”, o jornalista Martin Wolf escreveu um artigo publicado no “Valor Econômico” de 22 de maio, em que tenta entender o que contribuiu para que o tema aquecimento global tenha passado, para a opinião pública,  à categoria de assuntos chatos. Para ele, embora uma análise de resumos de 11.944 estudos científicos publicados  entre 1991 e 2011 tenha concluído que 98,4% dos autores endossaram que o aquecimento global é provocado pelo homem, “a julgar pela inação mundial, os céticos da mudança climática venceram”.
Wolf conclui, assim,  que a probabilidade de que o ser humano alcance a redução das emissões necessária para manter as concentrações de CO2 abaixo de 450 partes por milhão, como seria necessário para que a Terra não aqueça acima dos dois graus que já se sabe que ela vai aquecer, é impossível. Mas sugere oito possibilidades de ações, que vão desde implementar os impostos sobre as emissões de carbono, investir em adaptações aos efeitos das mudanças climáticas, tentar a geoengenharia, até optar pela matriz energética nuclear.
No fim das contas, o artigo começa desconstruindo o tema e termina se envolvendo nas mesmas questões que têm afastado a atenção da maioria. A sensação é que, enquanto a discussão ambiental não tiver uma visão direta dos impactos contra os humanos, ela continuará fria como as últimas geleiras do Ártico.
E chamar os humanos para a discussão quer dizer enfrentar, de cara, os impactos negativos das mudanças climáticas que já estão afetando, por exemplo, a produção agrícola de países do Oceano Pacífico como Tuvalu e Ilhas Salomão. Em alguns lugares desses territórios as águas salgadas dos oceanos estão avançando sobre pedaços de terras, tornando-as improdutivas.
O que precisa ser feito? Países ricos  darem dinheiro para os países pobres se adaptarem. Ou, os ricos poderão ter que absorver em seus territórios milhares de refugiados vítimas das mudanças climáticas, o que já vem acontecendo em muitos lugares. Só que, diante da crise econômica mundial, que muita gente apontou como a grande responsável para desaquecer os debates da Rio+20, essa preocupação com o futuro dos países pobres talvez demore a aparecer na agenda dos ricos. Talvez nunca apareça.

Crédito da Foto: Fabio Rodrigues Pozzebom/ABr)

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